Bacias leiteiras produzem 61% do leite brasileiro e ocupam apenas 5% do território

Silagem compactada em propriedade leiteira

Brasília, 6 de novembro de 2026

As 14 bacias leiteiras do Brasil ocupam 5% do território e respondem por 61% do leite produzido no país. O dado está no estudo Bacias Leiteiras Brasileiras 2025, divulgado nesta quinta-feira (5/11), pela Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG) (Centro de Inteligência do Leite - CILeite).

Nessas áreas, cada vaca produz em média 3.983 litros por ano. No restante do país, a média é de 1.583 litros. A média nacional de 2025 ficou em 2.499 litros por vaca.

A distância cresceu em dez anos. Em 2015, as bacias produziam 2.453 litros por vaca ao ano, e as demais áreas, 1.204. Pelos dados da Embrapa, a produtividade subiu cerca de 62% nas bacias e 31% no resto do país, em cálculo da reportagem.

Figura de localização das 14 bacias

O que são as bacias leiteiras

Pelo critério da Embrapa, bacia leiteira é um conjunto de municípios vizinhos com alta densidade de produção. As 14 estão nas regiões Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul. Os outros 95% do território produzem 39% do leite brasileiro.

O pesquisador Samuel Oliveira, engenheiro agrônomo da Embrapa Gado de Leite, destaca a Bacia do Sul, a maior em volume, e o Leste Paranaense, na região de Castro (PR), que passa de 7.000 litros por vaca ao ano. Há ainda áreas em Minas Gerais, como o Triângulo Mineiro, o entorno de Goiânia (GO) e regiões do Ceará, do Rio Grande do Norte e do sertão de Pernambuco.

O número caiu de 15 para 14 em relação à edição anterior da pesquisa, pois, no Ceará, duas bacias cresceram a ponto de se unirem em uma só.

Crédito: Embrapa Gado de Leite/CILeite e IBGE

Por que a produção se concentra

O principal fator é o frete. “O leite é extremamente dependente de frete para ter competitividade no laticínio”, afirma Samuel Oliveira. Ele conhece indústrias cujos caminhões rodam de 500 a 600 km por dia para completar a carga, e diz que esse modelo não se sustenta no longo prazo.

Com a produção reunida em poucas regiões, o custo de coleta cai e crescem a oferta de assistência técnica e o comércio de insumos. O pesquisador descreve três movimentos simultâneos: concentração geográfica, aumento do volume produzido por propriedade e redução do número de produtores.

A Embrapa não tem estatística nacional anual sobre quantos produtores deixaram a atividade. Estudos regionais, como os do Rio Grande do Sul, apontam queda forte.

O estudo também não mediu a infraestrutura das bacias, como estradas, energia e resfriamento do leite. Samuel Oliveira observa que várias delas coincidem com regiões bem servidas, entre elas o oeste de Santa Catarina, o sudoeste do Paraná e a Zona da Mata mineira. Para ele, é “bem possível supor” que isso favoreça a consolidação das bacias.

O que a forragem explica

Para a coordenadora da Câmara Especializada de Agronomia de Sergipe, Camila Costa, a produção de forragem é parte da diferença. Mesmo em zonas de clima pouco favorável, os produtores das bacias conseguem fazer silagem para o ano inteiro. No Nordeste, a palma completa a oferta de alimento. “Elas se preocupam em não faltar”, diz. Fora das bacias, na avaliação dela, é mais comum esperar a chuva e manter um manejo de pastagem menos eficiente.

Silo de superfície vedado com lona

Com milho e farelo de soja em alta, a estratégia, segundo Camila, passa por “aumentar a qualidade da forragem para diminuir os custos com a suplementação de concentrados”. Na pastagem, isso significa adubação para elevar o teor de proteína. Na silagem, um milho bem cultivado, que entregue muito grão e, portanto, mais energia.

Silagem de milho picada: a qualidade da forragem reduz o gasto com concentrados

Assistência técnica e o engenheiro agrônomo

Camila Costa discorda de que falte assistência técnica ao pequeno produtor. Ela cita os serviços do Sistema S, como Senar e Sebrae, acessíveis pelos sindicatos rurais. Segundo ela, a extensão pública nem sempre consegue atender a demanda. Parte dos produtores fora das bacias divide o tempo com outras atividades e dedica menos horas à propriedade.

Quem pode pagar, diz, tem a opção de contratar um engenheiro agrônomo. Ela mesma presta esse serviço: visita as propriedades a cada 60 ou 90 dias e calcula o volume de forragem que cada uma precisa produzir no ano. Como treinadora de equipes técnicas, vê espaço para que os profissionais entreguem consultorias de melhor qualidade e invistam em capacitação, porque “o mercado exige”.

Rebanho em sistema de confinamento

Nordeste cresce mais que as demais regiões

Das cinco regiões, o Nordeste é a que mais aumenta a produção, segundo Samuel Oliveira. Ele aponta a estrutura fundiária de pequenas e médias propriedades, a chuva e a temperatura noturna no leste da região e a menor concorrência de grãos, suínos e aves, que no Sul disputam área com o leite. O mercado consumidor é grande, e a região ainda traz lácteos de fora. O obstáculo principal é a convivência com a seca, e a qualidade da produção ainda precisa avançar.

Na avaliação do pesquisador, o mapa do leite está sendo redesenhado. “Algumas regiões estão aproveitando as suas vantagens, estão saindo na frente, se consolidando como o futuro do leite do Brasil”, afirma.

 

Beatriz Leal
Equipe de Comunicação do Confea
Imagens: Acervo pessoal Camila Costa e Pesquisa CILeite